Do silêncio à reconstrução a trajetória de Karine e a força do acolhimento

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Quando Karine Morais de Melo, 29 anos, moradora do bairro Floresta, chegou ao Projeto Dignidade para a Infância, ela não trouxe palavras — trouxe silêncio.

Indicada por participantes do Grupo Focal de Desenvolvimento Socioemocional, sentou-se no primeiro encontro calada, triste, visivelmente abalada. Apresentou-se rapidamente, mas ainda não conseguiu contar o que a tinha levado até ali. E ninguém a pressionou. Naquele espaço, o tempo respeita a dor.

Com o passar dos encontros e a construção de vínculos, algo começou a mudar. Karine passou a permanecer até o fim das atividades. Depois, começou a participar. Até que, quando se sentiu segura, encontrou forças para compartilhar sua história.

Ainda muito jovem, perdeu os pais. De uma hora para outra, precisou sobreviver com os irmãos, sem recursos, sem orientação e sem acolhimento. Engoliu o luto, silenciou a dor e amadureceu cedo demais. Aprendeu a resistir, mas nunca teve um espaço onde pudesse, de fato, ser cuidada.

Mais tarde, entrou em um relacionamento que a adoeceu e teve um filho. Quando acreditava que poderia encontrar alguma estabilidade, enfrentou um novo impacto: o diagnóstico de autismo da criança.

Mais uma vez, a sensação se repetiu — a de estar sozinha.

Sem saber como lidar com o transtorno e sem uma rede de apoio estruturada, o sentimento de abandono voltou com força, somando-se às dores antigas que nunca haviam sido elaboradas. Vieram as crises de ansiedade, a depressão e o cansaço extremo.

Ainda assim, havia um menino de seis anos que dependia completamente dela. E, para Karine, desistir nunca foi uma opção.

Foi no Grupo Focal que ela encontrou algo que nunca havia tido: escuta verdadeira, apoio sem julgamentos e um espaço onde sua dor não era minimizada — onde sua voz tinha valor.

Ali, Karine compreendeu que não era fraca por sentir. Era humana. E digna.

Ao conhecer outras histórias de luta e superação, deixou de se enxergar apenas como alguém que sobrevive. Passou, pouco a pouco, a se reconhecer como alguém capaz de reconstruir a própria história.

Hoje, Karine aprendeu a cuidar do filho — e de si mesma. Aprendeu a nomear suas emoções, a pedir ajuda e a não carregar tudo sozinha.

O Projeto Dignidade para a Infância não mudou o passado de Karine. Mas está transformando a forma como ela vive o presente e, principalmente, como enxerga o futuro do filho.

Quantas mulheres ainda permanecem em silêncio, enfrentando batalhas invisíveis?

Apoiar iniciativas como essa é garantir que nenhuma Karine precise atravessar a dor sozinha. Porque, quando uma mãe é fortalecida, uma geração inteira é protegida.

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