
Em 2025, a Associação Beneficente O Pequeno Nazareno, por meio do Projeto Dignidade para a Infância, acolheu no grupo terapêutico para mulheres uma participante que chegaria desconfiada, mas sairia transformada: Dona Antonieta. Seu primeiro contato com a equipe aconteceu durante uma palestra sobre violência contra a mulher, realizada na Casa da Mulher Maranguapense. Indicada pela assistente social do equipamento, recebeu o convite para integrar o grupo. A aproximação, no entanto, não foi simples. Após visita domiciliar e diversas tentativas de contato telefônico, ela confessaria mais tarde que, ao ver o número da instituição na tela, recusava-se a atender. “Lá vem aquele povo chato de novo”, dizia, desacreditada de propostas que, até então, nunca lhe trouxeram esperança.
Mas houve um dia em que a tristeza falou mais alto que a resistência. Em meio ao desânimo profundo, decidiu dar uma chance ao desconhecido. “Bom, já que eu não estou fazendo nada, vou lá ver o que esse povo tem de bom para me oferecer.” Foi assim que atravessou a porta do primeiro encontro, ainda fragilizada pelas dores acumuladas ao longo de uma vida marcada por perdas e violências. Ali, porém, encontrou outras mulheres que carregavam sofrimentos tão intensos quanto os seus e, ainda assim, ofereciam acolhimento e solidariedade umas às outras. Saiu daquele dia mais leve, com o coração tocado pela partilha e já ansiosa pelo próximo encontro. Voltou. E não voltou sozinha: trouxe amigas que, como ela, também precisavam de um espaço seguro para reconstruir suas histórias.
A trajetória de Dona Antonieta é atravessada por episódios de extrema violência. Além de perdas familiares profundas, viveu anos de agressões praticadas pelo antigo companheiro, de quem esperava amor e proteção. Em um dos momentos mais dolorosos de sua vida, foi arrastada pelos cabelos diante de vizinhos, submetida a uma humilhação que deixou marcas invisíveis, mas permanentes. No dia seguinte, cortou o cabelo bem curto, quase rente à cabeça, como se quisesse apagar o símbolo daquela agressão. Até hoje o mantém assim, sem perceber que o gesto ainda carrega ecos de um passado que insiste em lembrar.
A dor ganhou contornos ainda mais cruéis quando sua neta, criada por ela como filha desde o nascimento, foi vítima de feminicídio cometido pelo ex-companheiro, deixando duas crianças pequenas. Uma ferida que jamais se fecha. Mesmo assim, foi no grupo terapêutico do Projeto Dignidade para a Infância que Dona Antonieta reencontrou sentido para continuar. Segundo suas próprias palavras, o projeto “fez ela voltar a viver”. No espaço de escuta e fortalecimento, aprendeu a reconhecer suas dores, a compreender seus limites e, sobretudo, a transformar sofrimento em apoio para outras mulheres que enfrentam situações semelhantes.
Hoje, Dona Antonieta é mais do que participante: é voz ativa na defesa dos direitos das mulheres e integra o Conselho do Idoso, levando adiante a força que redescobriu. Sua história é a prova de que, quando a infância encontra a dignidade e as mulheres encontram acolhimento, vidas inteiras podem ser reconstruídas. Dona Antonieta é uma dessas heroínas silenciosas que o mundo pouco conhece, mas cuja coragem merece ser celebrada e compartilhada.
