
Existe uma dor para a qual não há palavra, em português ou em qualquer outra língua. Perder um cônjuge nos torna viúvos; perder os pais, órfãos. Mas não existe um termo capaz de definir a perda de um filho.
Moradora de Areia Branca, no Rio Grande do Norte, Dona Piedade Maria dos Santos, de 68 anos, é a personificação da resiliência humana e um exemplo da importância das redes de cuidado e acolhimento. Sua trajetória revela o poder transformador de projetos psicossociais que escutam histórias marcadas pela dor e fortalecem mulheres em situação de vulnerabilidade.
Dona Piedade enfrentou uma tragédia que desafia qualquer definição: a perda do filho, vítima da violência. O impacto desse acontecimento a mergulhou em um sofrimento psíquico profundo. A dor intensa do luto, agravada pela brutalidade da perda, fez com que ela perdesse o sentido da própria vida. Durante muito tempo, o desespero sufocou sua vontade de seguir em frente, levando-a a enfrentar um grave quadro de ideação suicida.
Foi nesse cenário de extrema vulnerabilidade que Dona Piedade encontrou acolhimento no Instituto Pequeno Nazareno, por meio do projeto Dignidade para a Infância (DPI). Inserida em um grupo terapêutico, ela passou a frequentar um espaço seguro, onde sua dor — antes silenciosa e solitária — pôde ser compartilhada, escutada e validada.
Segundo ela, os encontros representam “um pouco de alegria” em seu coração. Ao dividir sua história e ouvir o relato de outras mulheres, Dona Piedade começou, pouco a pouco, a reconstruir a própria vida. Sem apagar a dor da perda, encontrou novos sentidos para continuar vivendo, sustentada pelo apoio coletivo e pelos vínculos criados dentro da comunidade.
A trajetória de Dona Piedade mostra que o processo de cura, especialmente em contextos de violência e luto traumático, não acontece pela ausência da dor — porque certas perdas são irreparáveis. A verdadeira transformação está na possibilidade de construir uma nova vida ao redor dessa dor, ressignificando o sofrimento por meio do cuidado, da escuta e da solidariedade.
Hoje, Dona Piedade segue escrevendo sua própria história com coragem e dignidade, provando que, mesmo nas noites mais difíceis, os laços comunitários podem ajudar a tecer um novo amanhecer.
